1

A difícil transição de carreira para a agilidade

Com a crescente demanda do mercado para a carreira de agilidade muita gente tem tentando essa transição com o objetivo de ter novas oportunidades e até trabalhar de uma forma que acreditam ser mais eficiente e tenha maior conexão com os seus valores.

Mas essa transição para não é uma trajetória fácil, fazer investimento financeiro e de tempo para se aprimorar e, na grande maioria dos casos, parar na primeira pergunta “Mas qual é a sua experiência com agilidade?”, seja para PO (Product Owner) ou SM (Scrum Master) ou variantes conforme metodologia pode gerar certa ansiedade e frustração.

Então antes de tentar dar algumas dicas, vou trazer uma realidade que muitos ainda não pararam para analisar:

1) Quantas pessoas conhece no seu linkedin que esta tentando a transição para agilidade?

2) Quantas pessoas conhece que mostrou que tirou algum certificado de agilidade?

3) Qual o diferencial que faria te contratar no lugar da outra pessoa que fez os mesmos cursos e certificados que você?

É bem complicado a proporção de concorrência que começa a aparecer né? Mas o pior é que não para por ai, vamos a outros fatores:

4) Quando uma empresa abre uma vaga de Agilidade (PO/SM ou variantes) quantas pessoas com experiência você acha que tem interesse na oportunidade?

5) Quantas pessoas falam que trabalha com agilidade, mas no fundo continua trabalhando da mesma forma mas se considera como agilista porque tem um kanban ou faz as cerimonias do scrum, mas que no fundo conta como experiência?

Então complica mais ainda, mas o pior que ainda tem mais ofensores:

6) Na transição de carreira você esta disposto a abrir mão do seu salário de pleno/sênior para um salário de junior?

7) Normalmente todo GP (Gerente de Projeto) costuma a falar que faz tudo que o PO e o SM fazem, mas ele consegue acumular ambos os papeis e fazer super bem, o que normalmente é uma visão míope, pois estamos falando de perfis distintos e com profundidade nesses aspectos, então é muito importante não “banalizar” afirmando que o GP faz o que o PO e o SM fazem juntos, para quem tem domínio da agilidade possivelmente já vai te eliminar nessa afirmação.

É claro que tive que generalizar para conseguir contextualizar de forma geral o que acontece, mas procurei tocar nos principais pontos.

Agora vamos tentar ver formas de tentar viabilizar essa transição (considerando especificamente para o cenário de quem não tem experiência com agilidade), que como pode perceber, não vai ser uma tarefa fácil.

Vamos discutir primeiramente as questões 1, 2 e 3 apresentadas acima. Como pode perceber a concorrência para uma vaga não é fácil, então uma grande quantidade de gente já deve ser eliminada no que se referente a certificação, ter um CSM ou PSM-1 não é um diferencial é apenas um fator igualitário para manter no processo, então certificados como CertiProf é a mesma coisa que nada e muitas pessoas podem interpretar que você não tem interesse em ter a qualificação necessária para fazer a transição, então fazer o investimento nesses certificados é quase que fundamental para seguir em um processo, uma outra alternativa é fazer o TKP ou o KMP1 para quem pretende seguir com Kanban, pelas estatísticas existe muito mais gente trabalhando com o Scrum do que com Kanban, então a grande maioria procura as certificações Scrum e tentar iniciar por um Kanban, apesar de ter menor oferta tem também bem menos gente certificada, ou se tiver disposição e que de fato pode ser um diferencial nesse ponto é ter as 2 certificações (CSM ou PSM-1 e TKP ou KMP-1), nesse ponto poderá ser o seu diferencial por ter certificado reconhecido pelo mercado nas metodologias mais utilizadas.

Os pontos 5 e 6 são bem complicados, imagine os 2 cenários abaixo:

  1. Você se sente seguro para ser um SM de um time totalmente novo? Vai conseguir orientar o time com as práticas ágeis?
  2. Você se sente seguro para trabalhar com um time experiente com agilidade e que pode conhecer até mais da metodologia que o próprio SM? Como o SM atuaria em um cenário como esse?

Então tanto no caso do time inexperiente quanto do time experiente é um cenário complexo para um SM por exemplo, esses cenários são difícil mitigar para se preparar, mas a sugestão aqui é tentar ir mais para o apelo do item 5, ou seja, tentar criar uma forma de trabalhar com agilidade por mais que a empresa não tenha adotado e muitas vezes para isso você terá que implementar sem falar aquelas palavrinhas mágicas (Kanban, Scrum Daily, Retro, Planning), vai ter que fazer uma implementação silenciosa e ir obter as experiência sem necessariamente batizar as cerimonias, se começar a ver o valor nisso pode até ser que você passe a ser o grande agente de mudança da sua empresa atual e poderá ter de fato um desafio gigante, o que não deixa de ser uma grande oportunidade também, como o Victor Gonçalves costuma falar é Hackear a empresa com a cultura ágil.

Outro fator que é de extrema importância é o soft skills, se consegue ter uma boa comunicação, passar o seu pensamento, mostrar o seu interesse, mostrar que esta estudando constantemente e que tem vontade de implementar isso, mesmo que timidamente no seu trabalho atual, vai mostrar atitude, ponto fundamental para PO e SM, então não lamente que a sua empresa atual não faz isso, aproveite para ir exercitando as suas atitudes e analisando como consegue mostrar o valor na agilidade, acreditar que isso pode fazer o trabalho melhor é fator super importante, isso vai fazer você desenvolver o famoso mindset ágil, que é um fator que demora algum tempo para acontecer, então o quanto antes começar a praticar esses valores mais cedo vai mudar o seu mindset e isso terá efeito direto nos seus argumentos e atitudes.

Sobre o item 6, é sempre um ponto mais delicado, mas é importante avaliar se quer dar um passo para trás para depois dar 2 ou mais passos para frente, ou se prefere ficar parado e pode acabar entrando no efeito “congelado” por conta de dissídios e etc, pois começará a ficar fora da faixa do mercado e ai pode ser que tenha que dar 2 ou 3 passos para trás, o que é ainda mais doloroso.

Vale ter em mente que está indo para um perfil que de fato não tem experiência, mas ai pode perguntar “mas toda a minha experiência de vida, não conta?”, provavelmente não vai contar na entrevista pelo volume de oferta e demanda do mercado, mas sem dúvida vai contar no seu desenvolvimento e isso pode fazer você se desenvolver mais rápido, pois vai saber como adaptar mais rapidamente para resolver determinados pontos, então avalie bem se a oportunidade quer alguém com X anos de experiência, se tiver explicito esse tempo de é porque a pedreira não vai ser fácil, será que essa é realmente a oportunidade que você quer entrar? Por mais que tenha força de vontade e queria mergulhar, mas a prudência é algo importante mesmo nas pessoas mais ousadas, é uma questão difícil de resolver, mas ela pode ser crucial para ter a sua primeira experiência com agilidade.

Por último, a fatídica comparação do GP com PO e SM, essa comparação tende a ser eliminatória por vários motivos:

– Mostra que acredita que o GP é “melhor” que PO e SM, logo subestimas o trabalho do PO e do SM sem você se quer ter tido a experiência, é quase que pedir para você comparar um avião com um foguete, ambos podem voar, mas qual é a diferença? Já andou nos 2 para ter tido a experiência e poder comparar? Então evita comparações se de fato não teve experiência relevantes que comprove a sua hipótese.

– Na teoria o papel do PO é conflitante com o do SM, então o simples fato de acumular ambos os papeis já caracteriza uma disfunção do Scrum

– O nível de profundidade do assunto que o PO tem na sua função e o SM na sua respectiva é muito grande, são papeis especializados em identificar necessidade de produto e de ter foco no time respectivamente.

Então evite generalizações nesse caso e se pretende fazer a transição para a agilidade é importante deixar claro o caminho que quer ir, PO ou SM, se certificar em tudo e falar que faz tudo, esta caindo exatamente no ponto acima, então procure se especializar no que de fato vai ter fazer feliz.

Alguns atalhos que pode tentar é participar de grupos que discutem agilidade, mas não são aqueles grupos de agilidade que só fazem propaganda, são grupos que de fato promovem conversas que as pessoas podem expor as suas experiências, procure anotar e questionar para ir criando seu fundamento, esse interesse pode gerar oportunidade dentro da própria comunidade que tende a divulgar vagas.

Identifique quem é uma referência para você sobre agilidade e veja se pode conversar com essa pessoa com alguma frequência para que ela te passe a experiência dela, similar a uma mentoria, mas não fique esperando só ouvir, traga situações e cenários que esta tentando praticar para que possa criar a sua vivência.

Para finalizar, fica a dica também no momento da entrevista tentar obter se de fato a empresa pratica agilidade ou se simplesmente roda Sprints ou se tem um quadro kanban, mas no fundo é um waterfall totalmente disfarçado, mudar para esse cenário pode até ser uma oportunidade de ter contato com os termos, mas é fundamental ter ciência disso para não mudar de trabalho e se frustrar logo no primeiro mês, então procure pessoas que já trabalham na empresa e tente saber como de fato a metodologia é utilizada na empresa, se tem top-down e etc, então pesquise bem as oportunidades.

Espero que esse conjunto de dicas ajude na sua transição! É difícil, mas não é impossível, vai ser necessário foco e dedicação e toda essa trajetória te dará segurança para ir buscar uma oportunidade conforme espera.

Please follow and like us:
error

Vitor Cardoso

One Comment

  1. Por um instante li a biografia do meu processo de transição de carreira nessa postagem. Parabéns por todas as colocações e sigo na saga. O importante é ser diferente e demonstrar o seu potencial.

Deixe uma resposta