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Cynefin – A arte de tomar decisões melhores – Parte 1

O futuro é construído pelas nossas decisões diárias, inconstantes e mutáveis, e cada evento influencia todos os outros. – Alvin Toffer

Constantemente nos deparamos com situações que requerem pensamento rápido e decisões imediatas. Mas será que ao nos precipitarmos, não estamos negligenciando este processo e nos furtando de soluções mais assertivas e duradouras?

Criado por Dave Snowden em 1999, o Cynefin (pronunciado “quinévin”) é um framework que auxilia a tomada de decisões descrito como um modelo “sense-making”, no sentido de dar sentido para as experiências coletivas.

Segundo Snowden, os modelos de consultorias tradicionais tendem a “categorizar” as situações. Ou seja, primeiro olhamos para o framework e depois tentamos “encaixar” as situações de acordo com a caixa que faz mais sentido. O framework antecede as informações.

Já no modelo sense-making, os padrões do próprio framework emergem das informações coletadas. Ou seja, os dados ou informações antecedem o framework.

Todo sistema vivo, seja ele pessoal ou interpessoal, individual ou coletivo, pessoas, times ou organizações, etc… pode ser compreendido em 5 possíveis domínios:

Figura 1 – Cynefin Framework criado por Dave Snowden

Claro

Neste domínio, as relações de causa e efeito existem e são previsíveis e repetitivas. É um ambiente governado por Restrições Rígidas e regido pelas melhores práticas. Aqui todos sabem o que, como e quando fazer, o entendimento é claro e difundido, e pode-se associar ao conceito de “check-lists”.

Como exemplo de sistemas claros, podemos destacar as linhas de produção. Aqui as restrições rígidas fornecem um passo-a-passo, ou check-list, do que deve ser realizado para obter-se o resultado e tudo se movimenta conforme o planejado. Todos sabem perfeitamente qual é o seu papel e o que deve ser feito para entregar o produto, e temos como prever exatamente quantos carros, por exemplo, serão fabricados até o final do dia.

Este domínio recentemente foi atualizado de “óbvio” para “claro”, pois o conceito de obviedade frequentemente induzia a uma percepção de simplicidade no entendimento, quando na verdade o autor buscava o sentido de esclarecimento.

O processo de decisão segue o sentido de perceber — categorizar — responder.

Complicado

Neste domínio, também encontramos alta previsibilidade. No entanto, ao contrário do “claro”, onde tudo é simplesmente entendido e executado, aqui precisamos contar com análises de especialistas técnicos que dominam as boas práticas para resolução de problemas.

O complicado é regido pelas Restrições de Governança, ou seja, existem regras que constituem as boas práticas e o que pode ou não ser realizado em determinada função.

Seguindo a linha do exemplo anterior, podemos citar os especialistas de manutenção das linhas de produção. Quando um determinado equipamento quebra ou para de funcionar, estes especialistas são acionados para analisar o problema e consertar o equipamento, utilizando as boas práticas. Sempre respeitando as normas e regulamentações regentes.

Adicionalmente, tanto no domínio “claro” quanto no “complicado”, adotamos o conceito de “ordenados”. Ou seja, são sistemas estáveis, onde conseguimos compreender seu funcionamento e temos um alto grau de previsibilidade.

O processo de decisão segue o sentido de perceber — analisar— responder.

Complexo

Ao contrário dos sistemas ordenados, no domínio complexo temos sistemas imprevisíveis, onde só é possível identificar a relação de causa e efeito em retrospecto. Aqui as necessidades emergem conforme nos deslocamos no tempo e nada é estático e imutável. Pecisamos nos atentar ao cenário o tempo todo para adaptação.

Dessa forma, neste domínio lidamos com Restrições Adaptativas, onde conforme as práticas emergem, descobrimos novas formas de fazer as coisas através da experimentação. Se o experimento der certo, nós o difundimos e o amplificamos. Caso haja falha, nós aprendemos com os erros e pivotamos para a validação de outras hipóteses.

Parafraseando o professor Vitor Massari: “o ambiente complexo é diferente dos sistemas ordenados, onde conhecemos o comportamento previamente. Nos domínios complexos nós descobrimos o comportamento. A imprevisibilidade gera adaptabilidade”.

Por ser um domínio adaptativo, este ambiente proporciona o cenário ideal para a fertilidade de inovações.

Voltando ao nosso exemplo, aqui podemos citar o departamento de pesquisa e desenvolvimento da montadora de carros. Estas equipes estão constantemente olhando para o mercado e tentando decifrar maneiras de propor valor aos clientes através da experimentação. Adaptando e ajustando a trajetória de acordo com os feedbacks dos clientes, e pivotando quando necessário.

O processo de decisão segue o sentido de sondar— perceber— responder.

Caótico

Entenda o domínio caótico como uma situação inédita acidental e/ou catasfrófica, sendo marcado pela ausência de causa e efeito e restrições. Neste ambiente, precisamos agir rapidamente para estabilizar a situação e restabelecer o “status quo”.

Caracterizando-se também pela imprevisibilidade, aqui muitas vezes é necessário introduzir restrições para que possamos sair do caos.

Como exemplo, podemos citar um eventual alagamento na fábrica de carros devido à chuvas torrenciais. A maioria dos sistemas não estão preparados contra todos os tipos de emergências, portanto não têm planos de governança ou regras muito estabelecidas nestes cenários. Ou seja, não temos tempo de planejar uma estratégia ideal, precisamos retirar ou proteger as pessoas, equipamentos e carros o mais rápido possível!

O processo de decisão segue o sentido de agir — perceber — responder.

Não-odernado

Este é um local no qual você não sabe em quais dos domínios descritos acima você se encontra. É aqui que nos encontramos na maioria das vezes quando não temos uma visão holística da realidade, e acabamos interpretando as situações de acordo com nossas preferências ou crenças pessoais.

De maneira geral, a própria montadora de nosso exemplo reside no “não-ordenado”, pois é impossível caracterizar um grande sistema vivo inteiro dentro de um único domínio, sendo necessário dividí-lo em partes menores e analisar individualmente cada agente daquele sistema (dividir para conquistar!). Ou seja, entendemos que os operadores na linha de produção vivem puramente no domínio “claro”, ao passo que os manutencistas residem no domínio “complicado”, os engenheiros no domínio “complexo” e ao introduzir ingredientes disruptivos e catastróficos, facilmente caímos no domínio “caótico”.

Se você está com dificuldades em identificar o cenário no qual se encontra, é porque ainda não desmembrou o suficiente para classificar e navegar entre os demais domínios.

Conclusão

Ao utilizarmos o Cynefin para auxiliar o processo de tomar decisões, conseguimos adequar nossa percepção para a realidade e facilitar a forma que lidamos com diversas situações, utilizando e compreendendo os dados e informações que nos cercam e transformando-os em respostas para variados problemas.

“Dependendo de onde você estiver, você deve analisar e pensar diferente, ao invés de achar que existe uma solução única para tudo.” — Dave Snowden

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psampai

Casado e pai de um filho, sou apaixonado pela minha familia e em disseminar Agilidade nas Organizações e Sociedade. Acredito que possamos sim fazer a diferença!

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